O feito ocorreu em 2016
Em 2016, uma cirurgia realizada no Texas Children's Hospital, em Houston, nos Estados Unidos da América (EUA), entrou para a história da medicina fetal. A protagonista foi Lynlee Hope Boemer, que ficou conhecida mundialmente como a "bebê que nasceu duas vezes". Durante a gestação, ela foi parcialmente retirada do útero da mãe para que médicos removessem um tumor que ameaçava sua vida. Após o procedimento, a bebê foi recolocada no ventre materno, onde permaneceu por mais 12 semanas até nascer de forma definitiva.
Tudo começou quando Margaret Boemer realizou um ultrassom de rotina com 16 semanas de gravidez. O exame revelou que o feto apresentava um teratoma sacrococcígeo (Sacrococcygeal Teratoma – SCT), um raro tumor localizado na base da coluna vertebral. Embora seja o tumor mais frequente em recém-nascidos, ele ocorre em aproximadamente um a cada 35 mil a 40 mil nascimentos. No caso de Lynlee, a massa crescia muito mais rápido que o bebê e passou a desviar grande parte do fluxo sanguíneo, sobrecarregando o coração fetal e reduzindo drasticamente as chances de sobrevivência.
Com 23 semanas e cinco dias de gestação, especialistas do Texas Children's Fetal Center decidiram realizar uma cirurgia fetal aberta (Open Fetal Surgery), procedimento reservado para casos extremamente graves. A equipe foi liderada pelo cirurgião pediátrico nigeriano Dr. Oluyinka Olutoye e pelo cirurgião fetal Dr. Darrell Cass, acompanhados por obstetras, anestesistas, cardiologistas fetais, neonatologistas e outros especialistas. Durante cerca de cinco horas de cirurgia, os médicos abriram o abdômen e o útero da mãe, retiraram parcialmente a bebê — ainda ligada ao cordão umbilical e à placenta — e removeram a maior parte do tumor. Após aproximadamente 20 minutos fora do útero, Lynlee foi recolocada no ventre materno para continuar seu desenvolvimento.
A gestação prosseguiu normalmente até 6 de junho de 2016, quando Lynlee nasceu por cesariana, com quase 36 semanas e cerca de 2,4 quilos. Alguns dias depois, ela passou por uma segunda cirurgia para retirar pequenos fragmentos do tumor que permaneceram na região do cóccix. A recuperação foi considerada um sucesso, e a criança pôde se desenvolver normalmente.
O médico Oluyinka Olutoye, nascido na Nigéria e formado pela Obafemi Awolowo University, tornou-se referência internacional após o procedimento. Especialista em cirurgia pediátrica e fetal, ele era codiretor do Texas Children's Fetal Center e recebeu homenagens pelo feito, considerado um dos maiores avanços da cirurgia fetal moderna. O caso de Lynlee Hope continua sendo citado em congressos médicos e publicações científicas como um marco na medicina, demonstrando que, em situações específicas, é possível tratar doenças graves ainda durante a gestação e aumentar significativamente as chances de sobrevivência do bebê.
Da Redação CSFM












